Quando se fala na cidade e o meio ambiente, a primeira imagem que se forma na mente são os desafios com a poluição do ar, do solo e das águas, o destino ideal para os resíduos sólidos e as questões com a ocupação inadequada do solo em encostas ou fundo de vales, entre outros. Contudo, além desses problemas que devem ser resolvidos com toda urgência e prudência necessárias, gostaria aqui de desviar o foco um pouco para centrar no ser humano, não só como ser vivo, como também pela sua condição de ser social, que produz um ambiente próprio, se relaciona com o lugar, que provoca sensações e é provocado por elas.
Ruas, praças e parques sistematizam o espaço urbano, juntamente com uma coleção de edifícios, e é através da forma em que estão dispostos que criam a peculiaridade de cada lugar. Deste arranjo, percebem-se claramente os espaços públicos e os privados, definidos pelos sistemas acima descritos, que poderíamos chamar também de espaços abertos, onde a circulação é permitida livremente a todos os cidadãos e fechados, onde o trânsito é normalmente restrito.
O espaço público caracteriza-se, pois, por concentrar quase todas as atividades humanas em uma cidade e deve por isso merecer maior atenção da comunidade e seus planejadores, para melhor qualificar o desenho urbano com objetivo de:
Primeiro, promover o encontro social em enclaves de calmaria, nos locais de muita concentração de atividades, normalmente em centros das cidades, mantendo mobiliário urbano como bancos de praça em condições de uso, convidando o pedestre ao descanso, ao acolhimento e talvez à contemplação, no caso de existir um jardim ou a abertura para uma bela paisagem, com ou sem significado;
Segundo, buscar a identidade da população com o seu lugar, ao preservar monumentos edificados ou naturais, que criam, deste modo, vínculos homem e meio através de referências urbanas. Um rio, um lago, um prédio histórico ou qualquer elemento com valor sentimental ou cultural deve ser não só preservado, como o seu entorno pensado cuidadosamente, de modo a valorizar pelo desenho urbano o seu real significado para aquela população;
Terceiro, através do desenho, provocar os sentidos humanos, quer abrindo visuais e perspectivas, quer obrigando o transeunte a passar de um lugar mais estreito para outro bem amplo, ou criar enquadramentos (portas urbanas) que funcionem como antecâmaras, posicionando o espectador entre o “aqui” e o “ali”. Outro artifício é filtrar a luz natural através das arcadas dos edifícios (espaços semi-públicos) e a noite “brincar” com a luz artificial, buscando dramatizar a iluminação e assim privilegiar monumentos ou outros pontos focais;
Quarto e por fim, disciplinar o trânsito de veículos de maneira a hierarquizá-lo dentro da malha viária com o desvio do tráfego de veículos pesados do centro da cidade, dando lugar a espaços com ruas e alargamentos exclusivos ao uso de pedestres. O automóvel não pode ter primazia sobre o espaço público, provocando quando isso ocorre, na diminuição da qualidade do espaço urbano, concorrendo para isso a poluição sonora e a do ar e grandes conflitos entre veículos e pedestres.
Harmonizar estes aspectos pode estar em nosso alcance desde que a população se conscientize que o meio edificado é tão social quanto físico. Se organizado com instrumentos legais, e instituições fortes, poderão propiciar as mudanças necessárias ao longo do tempo.
“O espaço físico não é tudo, não é e nem faz a revolução, mas cria o ambiente mais ou menos disponível à imagem da sociedade”. A frase do famoso estudioso de arquitetura e urbanismo, Vittorio Gregotti sintetiza muito bem o que tratamos neste texto, o qual ressalta o valor que o espaço público pode ter em nossas cidades e em seus moradores, por servir de palco aos acontecimentos e possibilitar intenso intercâmbio social.